Rui Roque, engenheiro naval de 52 anos é natural do Entroncamento e está radicado há vários anos em Vila Real de Santo António onde criou a Nautiber – Estaleiros do Guadiana, atualmente líder na construção de barcos de trabalho. O semanário algarvio, Jornal Barlavento desta semana dá-lhe o destaque da primeira página, com fotografia a toda a largura.
 
Por cortesia do jornal Barlavento/ Open Media Group, publicamos o artigo da edição desta semana, que também poderá ser lido em http://barlavento.pt/destaque/nautiber-lidera-construcao-de-barcos-de-trabalho
 
NAUTIBER LIDERA CONSTRUÇÃO DE BARCOS DE TRABALHO
 
Sejam traineiras para pescar ao largo costa africana, barcos de carreira e turismo, lanchas rápidas para as autoridades ou unidades flutuantes de processamento de bivalves, há apenas um estaleiro capaz de fazer tudo isto e muito mais. Rui Roque, 52 anos, engenheiro naval e sócio-gerente da Nautiber – estaleiros do Guadiana, empresa com sede em Vila Real de Santo António não teme desafios, nem o futuro, até porque já tem encomendas até meados de 2018.
 
Em Vila Real de Santo António constroem-se barcos de trabalho. São modernos, feitos em fibra de vidro e para todo o tipo usos, à medida de quem deles precisa para ganhar a vida. «A Nautiber é uma consequência da tradição que sempre existiu aqui. Acho que a cidade identifica-se com este sector. Não é um trabalho só nosso, já vem detrás e temos dado continuidade. No fundo, houve uma reconversão do saber tradicional das técnicas da madeira para os novos materiais. Hoje somos uma referência e as pessoas vêm cá para ver os barcos que construímos e para tirar ideias», descreve Rui Roque, engenheiro naval e sócio-gerente da Nautiber, na sede da empresa, na Ponta de Santo António, onde o Guadiana acaba e se avista Espanha na outra margem. O estaleiro fervilha de atividade. «O barco mais pequeno que fazemos tem nove metros. Começam nos 100 mil euros e acabam nos dois milhões de euros», descreve. Encomendas não faltam, pelo menos, até meados do próximo ano.
 
«Estamos a construir duas cercadoras de 25 metros, uma para Angola e outra para Quarteira», que em média, custam 1,8 milhões de euros. «Estamos a fazer uma outra cercadora de 20 metros para Angola também. E uma embarcação polivalente de 14 metros para Moçambique, a ser utilizada na pesca. Para as marítimo-turisticas estamos a fazer um barco de 18 metros para Vilamoura. E um catamarã de 10 metros para Sagres. Temos um outro monocasco que ainda não tem dono, com capacidade para transportar 50 pessoas. E estamos a iniciar a construção de mais três embarcações, catamarãs, revela. Estão ainda em vista, duas embarcações de pesca para Marrocos.
 
Na plataforma exterior do estaleiro, equilibra-se uma traineira cercadora de 18,35 metros. Está praticamente finalizada. Está equipada com porões com água refrigerada e bomba chupadora para a costa angolana. O sol bate no casco com força, e aquece a apertada casa de máquinas, onde uma dupla de mecânicos liga um labirinto de tubos e fios que em breve há-de ganhar vida. «Temos de pôr as coisas de forma a que o cliente só tenha de cá vir dizer como é que quer o barco, e arranjar o dinheiro para o fazer. O resto, tratamos nós de tudo. Tripulação, abastecimento, fazemos o acompanhamento até à entrega, porque durante este processo, o armador tem de estar concentrado na sua atividade que é pescar», diz.
 
Rui Roque acredita bastante naquele mercado africano e explica porquê. Com os últimos quadros comunitários a cortar os apoios e incentivos à renovação da frota de pesca nacional, «saímos da zona de conforto e fomos à procura de trabalho lá fora. Foi assim que chegámos a Angola, com muito sucesso. Trabalhamos diretamente para os clientes, com as suas especificidades», explica.
 
E o financiamento? «O Angola Investe é um mecanismo de crédito que empresta dinheiro aos armadores. Recebemos 20 por cento no início e 80 por cento no final, o que representa para nós um esforço financeiro enorme. É preciso prepararmo-nos. Nesta fase, quase toda a gente se afastou de Angola. Mas é quando estamos em baixo que precisamos de ser apoiados, e por isso, acho que é um erro afastarmo-nos. Penso que nos devemos manter, com prudência e com cautela. Se eles depositam confiança no nosso trabalho, nós também temos de lhes dar confiança», simplifica.


Filtros para arrefecer centrais nucleares
 
A inovação tem sido uma aposta constante da Nautiber, e é por isso que neste momento, em Vila Real de Santo António estão a ser produzidas «placas para a montagem dos filtros de arrefecimento das centrais nucleares, nos quais a água passa a grande pressão, para eliminar todos detritos» antes de chegar ao núcleo. As placas também são usadas «em centrais de osmose inversa», que produzem água doce potável a partir da dessalinização da água do mar. Rui Roque, engenheiro naval e sócio-gerente da Nautiber, explica que «há cerca de dois meses fizemos um acordo de trabalho para três anos, com uma empresa de Bilbau, a Fluytec. Estamos a fabricar as peças nas quais assentam esses filtros. É uma área muito específica, e um mercado de muita responsabilidade». As peças são fabricadas na zona industrial, reservada para projetos especiais e para o trabalho com materiais e técnicas mais avançadas, como a laminagem por infusão assistida a vácuo. «Temos de pensar sempre em alternativas, dentro da nossa área, dentro daquilo que sabemos fazer. Isto não é construção naval, mas é fibra de vidro com uma tecnologia nova. Para já, estamos a vender material e mão-de-obra, em que o risco é grande. Depois de termos a confiança do parceiro, queremos dar valor acrescentado. O passo seguinte é maquinar estas peças. É uma alternativa para se um dia falhar o mercado da embarcações», a empresa continuar a trabalhar, evitando situações de desemprego.
 
Retiro náutico para turistas
 
No final de 2016, a Nautiber adquiriu um terreno contíguo ao estaleiro, de 10 mil metros quadrados. «Estamos a libertar espaço para uma outra atividade, com um componente forte turística ligada à náutica. Será uma zona de parqueamento de embarcações de recreio em seco, com uma parte de lazer, sem este carácter industrial. Queremos fazer um centro náutico, com hotelaria, restauração e bar para as pessoas desfrutarem. Há quem faça férias para arranjar os seus barcos de recreio, sobretudo pessoas do norte da Europa, reformados que gostam de ter o seu barco em condições, com uma zona comum para usufruir, na qual possam ter a sua própria oficina e espaço para guardar as coisas. Queremos explorar esse conceito. Há quem viva muito esta questão, e tire muito prazer da manutenção, mais até do que navegar». Na perspetiva do sócio-gerente, este é um investimento «importante porque as embarcações que nós construímos pontuam-se por poucos recebimentos, e muito elevados. É preciso ter uma ferramenta de tesouraria que traga fluxos financeiros mensais».
 
Crescimento das marítimo-turísticas
 
Outra coisa que mudou nos 25 anos de vida da empresa, é o evoluir do sector da marítimo-turística. E do tráfego local que modernizou a frota, de norte a sul. No Algarve temos tido bastante intervenção. Por outro, lado os apoios dos diferentes quadro comunitários estimularam a construção de novas unidades para a atividade marítimo-turística. Para tal foi importante o conceito barcos feitos com dinheiro do Algarve, feitos no Algarve e para o Algarve. Agora, está a chegar-se a uma fase em que já não há muito espaço em termos de infraestruturas. Os barcos têm de ter locais para atracar e começa a haver dificuldades nesse sentido. No Algarve, os principais polos são Albufeira, Lagos e Vilamoura, estão a começar a abrir os mercados de Olhão, Faro, Tavira, Sagres e Portimão com capacidade de crescer. É preciso haver no entanto condições físicas», diz. Um trabalho recente foi a embarcação «José Guerreiro», inaugurado na quarta-feira, 26 de julho. «Culminou com o facto de ter sido aberto concurso pela Docapesca para as concessões de carreiras em Olhão, que obrigaria a mandar fazer novas embarcações. A empresa Tavares e Guerreiro, antecipou essa situação e mandou construir um barco para 400 pessoas, adequado ao trabalho que irá desempenhar, com o objetivo de se apresentar a concurso já com essa ferramenta», e está prevista mais uma unidade com capacidade para 500 pessoas.
 
Capital humano é o recurso mais valioso
 
A Nautiber – Estaleiros Navais do Guadiana, Lda, emprega hoje cerca de 70 pessoas, desde laminadores, eletricistas, pintores, canalizadores, serralheiros e mecânicos, com uma média de idades a rondar os 46 anos. «Como vivemos numa zona onde não é fácil subcontratar, desenvolvemos a capacidade de não estar dependentes de ninguém. Temos tido o cuidado de ir renovando quadros, e damos muita formação aos nossos colaboradores. Neste momento, das seis pessoas que trabalham no escritório, quatro resultaram de estágios profissionais do Instituto do Emprego e Formação Profissional (IEFP). Temos uma política de acolher recém-licenciados da terra. A verba destinada a atividade social dirigimo-la sobretudo para a promoção de estágios. Achamos que é importante criar e ter aqui massa crítica, para conseguirmos ter alguma escala», revelou Rui Roque, sócio-gerente da empresa. Um caso prático é o jovem engenheiro mecânico Ricardo Lopes «que veio para cá estagiar, integrou os nossos quadros e neste momento a empresa promoveu que fosse tirar um mestrado em engenharia naval» no Instituto Superior Técnico, em Lisboa. Além disso, «quando houve a grande crise na construção civil, aproveitámos alguns carpinteiros do branco, e reconvertemo-los para as técnicas da indústria naval. Aqui valorizamos o trabalho por igual, porque todos precisamos e dependemos uns dos outros. Esta empresa vale pelo trabalho que faz, e pelas pessoas que tem para o fazer», sublinha.
 
Futuro da empresa e do sector passa por agitar as águas
 
Em relação ao futuro do sector, «temos que andar sempre, de alguma maneira, a agitar e provocar um pouco o mercado. É preciso inovar. É preciso fazer algo diferente em cada barco que construímos e com isso vamos conquistando mercado», diz Rui Roque. No entanto, nem tudo é um mar de rosas. A empresa algarvia gostaria de aumentar a exportação de embarcações de passageiros. «Temos de ir pela diferença, através do design que lhes dá valor acrescentado». O problema é que na Europa, várias nações têm legislação específica que cria constrangimentos à entrada nesses mercados. No entanto, as maiores barreiras estão cá dentro. «Infelizmente e lamentavelmente, ao longo destes 25 anos, a grande dificuldade que tenho tem sido o relacionamento com as entidades que deveriam ser reguladoras, e nossa parceiras, mas que funcionam mais como entidades fiscalizadoras», lamenta. A culpa é da legislação que não acompanha o sector.
 
Na construção naval em Portugal, a única assinatura necessária de um técnico especializado é a de um engenheiro eletrotécnico, se o barco tiver corrente alterna. Não é preciso a assinatura de nenhum engenheiro naval, ou de alguém especialista. Isto porque atualmente a Direção Geral de Recursos Naturais, Segurança e Serviços Marítima (DGRM) assume a responsabilidade da análise do projeto e das vistorias, sobre o trabalho que estamos a realizar», explica. Resultado? «Temos prazos de aprovação dos projetos na ordem dos seis a sete meses. Depois das embarcações estarem prontas, temos prazos para as vistorias na ordem dos dois meses, até que os armadores tenham os papeis para trabalhar. O barco do José Guerreiro é um exemplo. O projeto levou seis meses a ser aprovado. Teve aprovação numa quinta-feira, na sexta-feira tirei a licença de construção, e na segunda-feira lancei o barco à água. O que não é normal», sublinha.
Rui Roque tem vindo a defender a delegação das «responsabilidades a quem projeta e a quem faz o trabalho. Devem ser delegadas competências na regulação do sector a outras entidades, e deve ser simplificado o processo de licenciamento das embarcações. Nos documentos finais da embarcação, deve ser criado um documento único, em vez da quase dezena que acompanham o barco. E informatizar tudo para termos a informação do andamento da análise dos projetos sempre disponível em tempo útil», conclui.
 
 Bruno Filipe Pires In Jornal Barlavento