Em princípio, este espaço destina-se a artigos de opinião sobre factos e circunstâncias do momento presente ou passado recente. Contudo, acho importante incluir nele um retalho histórico antigo sobre uma associação local que desempenhou e ainda desempenha um papel importante na nossa comunidade. Acho importante assegurar que estas memórias não morram, e que não se destinem apenas a leitores de livros e revistas de História e dissertações de mestrado.
Há 103 anos, nasceu no Entroncamento uma cooperativa exemplar. Tendo como modelo a cooperativa inglesa de Rockdale, a Sociedade Cooperativa de Crédito e Consumo dos Ferro-Viários e Aderentes foi criada por escritura de 17 de novembro de 1913.
A cooperativa Pioneiros de Rochdale, formada inicialmente por 28 tecelões, surgira em 1844 numa pequena localidade inglesa perto de Manchester, e foi considerada a cooperativa perfeita. O sucesso da sua iniciativa fez com que em 1844 já fossem 630, e 20 anos depois 5.300, continuando a crescer nos anos seguintes.
Os princípios de Rochdale eram os seguintes: 1.º - Adesão livre; 2.º - Controle democrático; 3.º - Repartição dos excedentes, pelos sócios, em proporção das compras; 4.º - Juro, atribuído ao capital, limitado; 5.º Neutralidade política e religiosa; 6.º Venda a pronto; 7.º - Desenvolvimento da educação.
O Entroncamento em 1913 era uma aldeia industrial, com uma vida associativa relevante atendendo à sua pequenez. Em 1908, tinha existido uma associação teatral de nome Thalia, de que dá notícia O Riachense, e em 1911 foi fundado o Grupo Recreativo e Cultural 1.º de Outubro de 1911, mais conhecido por Parafuso, que segundo o jornalista O. P. Brito escreveu numa das suas crónicas, já existiria antes da fundação oficial, datando a sua existência de antes da implantação da República.
Em 1913, no mesmo ano de nascimento da Cooperativa, é criado o grupo anarquista Estudos Sociais Luz, que se enquadra no movimento operário da Primeira República, quando as ideias anarquistas já estavam amplamente divulgadas. O Entroncamento era um meio operário em desenvolvimento, onde as ideias chegavam depressa trazidas pelo comboio. Antes disso, já tinha existido nas Vaginhas um núcleo da Fraternidade Operária.
Em 14 de março de 1914, foi fundado nas Vaginhas o Grupo Musical e Recreativo O Ramalhete.
Nesse mesmo ano de 1914, logo no mês de Janeiro, ocorreu uma grande greve ferroviária, cujo comité central se situou no Entroncamento. Esse e os anos seguintes foram tempos de luta, com greves frequentes e as consequências inevitáveis, as suspensões, as prisões e os cortes nos vencimentos por elas ocasionados; e a falta de víveres, a luta pelo pão e as dificuldades de subsistência causadas pela conjuntura económica e pela 1.ª Grande Guerra que veio a seguir. Em todo esse contexto, a Cooperativa desempenhou um papel relevante.
Hoje, toda a gente no Entroncamento conhece o café SCAFA e o supermercado que lhe está anexo, mas muito poucos saberão qual foi a sua raiz e como funcionou a Cooperativa nos seus primórdios.
Do jornal O Ferro-viário, de 1 de Janeiro de 1914, se transcrevem alguns dados sobre os seus primeiros corpos gerentes e os primeiros estatutos, não na sua totalidade, porque são extensos.
Alguns artigos poderão parecer pouco em conformidade com a modernidade das ideias cooperativistas, como o facto de se exigir na informação sobre o novo sócio, a conduta moral, ou que as mulheres casadas não possam ser sócias sem autorização dos seus maridos. Era o espírito da época, a 1.ª República não deu o sufrágio às mulheres.
Os primeiros corpos gerentes da Sociedade Cooperativa de Crédito e Consumo dos Ferro-viários e Aderentes foram constituídos conforme se segue:
Direção:
Presidente – Carlos José Caetano, Vice-Presidente – António da Silva Alfaro, 1.º secretário – Eduardo Coelho, 2.º secretário – Frederico Poitout, Tesoureiro – Bernardino de Almeida, Vogais recebedores – Manuel de Freitas, António Delgado e José da Conceição Libório.
Conselho Fiscal:
Presidente – José Malaquias, Secretário – José Redondo, Vogal - Afonso Martins Maia.
Mesa da Assembleia:
Presidente – António Lara, Secretários – Leonardo Poitout e Augusto Gaspar.
Comissão de Compras:
Gabriel da Silva, Gonçalves Eiró, José Pereira, Manuel Horta e João Horta.
Estatutos da Sociedade Cooperativa de Crédito e Consumo dos Ferro-Viários e Aderentes:
Capítulo I
Artigo 1º - É criada e será regida por estes estatutos e pelas disposições de direito aplicável a uma sociedade cooperativa de crédito e consumo de responsabilidade limitada denominada “Sociedade Cooperativa de Crédito e Consumo dos Ferro-Viários e Aderentes”.
Art. 2º - A sociedade tem a sua sede no lugar do Entroncamento.
Art. 3º - É formada por ilimitado número de sócios e por tempo indeterminado.
Art. 4º - A sociedade destina-se:
1º A fornecer todos os artigos necessários à alimentação e vestuário dos sócios, e todos os utensílios necessários aos usos domésticos, tudo de boa qualidade e em condições favoráveis de preço, contratando com estranhos os fornecimentos que não possa fazer de conta própria, e tudo em harmonia com estes estatutos e regulamentos especiais que se fizerem;
2º Criar, conservar e desenvolver uma riqueza chamada “Capital de Continuidade” – além do fundo individual; e para mais garantia da sua existência, este capital será formado conforme se indicar nestes estatutos;
3º A emprestar, exclusivamente aos seus associados, quaisquer quantias com juro módico;
4º A promover por todos os meios ao seu alcance o aperfeiçoamento intelectual e profissional dos sócios, criando aulas, oficinas e bibliotecas, realizar conferências e cursos profissionais
Art. 5º - Logo que as circunstâncias o permitam, a sociedade poderá adquirir por compra, edifício ou edifícios próprios para dar desenvolvimento às suas operações e para instalação das suas secções.
Capítulo II
Art. 6º - O capital social é variável, do mínimo de 50$00, já subscrito pelos sócios fundadores em partes iguais. É formado com as quantias resultantes de quotas, joias, estatutos, diplomas, cadernetas, lucros e donativos.
Art. 7º - O capital divide-se em fundo de reserva, fundo individual e fundo de continuidade.
§ 1º - Fundo de reserva é constituído pela percentagem mínima de 10% sobre os lucros líquidos anuais, e ainda pela importância das joias.
§ 2º - Fundo individual é a acumulação das quotas e lucros se os houver, depois de deduzidos os encargos.
§ 3º - O capital de continuidade forma-se e desenvolve-se com 30% dos lucros líquidos, depois de deduzidos os 10% para o fundo de reserva, e com quaisquer donativos e receitas eventuais, e com eles se cria uma “Caixa Económica”, destinada a fazer empréstimos, exclusivamente aos sócios, a juro módico, constituindo caução e garantia desses empréstimos o fundo individual de cada sócio.
Capítulo III
Dos sócios
Art. 8º - Podem fazer parte desta sociedade:
1.º Todos os empregados ferro-viários, sem distinção de sexo;
2º Todos e quaisquer outros indivíduos, sem distinção de crença, sexo ou nacionalidade, mas que tenham boa reputação moral e ocupação conhecida.
§ único A qualidade de sócio é intransmissível.
Art. 9º - Não serão admitidos como sócios:
1º Os indivíduos que sendo menores de vinte e um anos, não estejam emancipados ou não apresentem a competente autorização de seus pais ou tutores;
2º As mulheres casadas sem autorização de seus maridos;
3.º Os indivíduos que sejam comerciantes, e os que tenham profissões que possam prejudicar os interesses da sociedade.
Art. 10º -Para qualquer indivíduo ser admitido na sociedade é necessário proposta dum sócio no gozo dos seus direitos, a qual deverá conter o nome, idade, naturalidade, sexo, estado, ocupação, residência, conduta moral, e se sabe ler e escrever.